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Cristiano Ferraz


Entrevista

Foto: Elysangela Freitas 



Por: Jetro Rocha
edição de texto: Luciana Ferreira




Artesão Cristiano Ferraz confecciona instrumentos de percussão

Aprendeu a tocar no Maracatu foi lá que começou a produzir, pela necessidade de ter instrumentos e para se manter na vida




   No Maracatu aprendeu a tocar tambor. Foi onde tudo começou para Cristiano Ferraz, 34 anos, que queria, como muitos, viver de música, e, logo notou todas as dificuldades para isto acontecer. Com a necessidade de ter instrumentos para tocar para se divertir e depois de 3 anos indo só ver o batuque veio o momento real de produzir seu primeiro instrumento uma alfaia de macaiba com incentivo de seu amigo e primeiro professor de maracatu o  Tiago Felix Batista, surgiu a oportunidade de fazer sua única oficina de confecção de alfaias no Sítio da Trindade, no Projeto Multicultural da cidade do Recife.
Neste início foi absorvendo conhecimento, tanto com outras pessoas como por meio de pesquisas próprias. Como o próprio Cristiano adora dizer, “Eu sou aluno dos professores do mundo”.
  Nesta sua trajetória, sofreu com pessoas que destravavam a sua produção, mas com a ajuda da namorada e de sua mãe, a quem “culpa” por sua evolução, tem hoje, em sua casa, uma oficina para trabalhar com equipamentos adequados. Foca em clientes que lhe fazem encomendas por achar sua maneira de produzir mais adequada, mas ainda não é tão presente nas feiras, mesmo já tendo um bom currículo, levando em conta os locais onde já expôs suas peças.  
  Tem um traço humanizado na confecção de seus produtos. Isto vai desde usar material reciclável no trabalho bruto dos artefatos de madeira, até o acabamento, como a pintura dos instrumentos. Cristiano gosta conhecer o comprador, e assim individualizar a produção, fazendo sua arte com as características de quem adquire o objeto das mãos dele.
Além de artesão de instrumentos, Cristiano dá aula em oficinas de maracatu, acompanha artistas de música infantil, facilita vivências de percepção com instrumentos de percussão, faz sonoplastia para contação de histórias, é percussionista de bandas e também produtor cultural. Porque tantas atribuições? Porque os músicos hoje não podem ter uma só função.   



Foto: Elysangela Freitas




Quando começou a trabalhar neste espaço que é seu ateliê?

Faz entre três e cinco anos, mas antes eu já produzia instrumentos. Não tinha a idéia que iria de ter um espaço, uma pequena oficina pra trabalhar. Na verdade eu não acreditava no talento que tinha. Chego a me emocionar, porque muitos destratavam meu trabalho e eu ficava tão triste que não conseguia produzir. Quem tem “culpa” nisto são a minha namorada e a minha mãe. Elas me ajudaram a continuar. Se não fosse por elas eu não teria investido, comprado máquinas e feito as pesquisas. 

Além dos instrumentos, você confecciona algum outro tipo de material?

Não. Eu já trabalhei antes. Fazia acessórios femininos. É que não gosto de falar “bijuterias”, porque era uma coisa tão específica, que não conseguia repetir produto. O termo bijuteria acho muito pesado, tipo “faz de qualquer jeito que o povo aceita”. Mas como eu sempre parava pra pensar e pesquisar, e sempre trabalhava na perspectiva de qual mulher eu iria abordar, e ela poderia usar a peça num momento de festa ou momento casual. Eu era designer de peças.

Qual a nomenclatura que você usa artesão ou Luthier?

Não existe diferença, nós temos a síndrome do espelho, se eu falar pra um francês que sou artesão, tudo bem, mas, para as pessoas daqui, falando Luthier, tem uma diferença, não sabem eles que Luthier é artesão em português.

Você tem uma referência no conceito estético dos instrumentos?

A questão estética, eu pesquiso, porque minha origem familiar é de uma mistura, uma amplitude que dá pra fazer muita coisa. Minha mãe é negra e meu pai é índio maranhense Fora isso, eu vou pesquisar outras coisas que acho importantes. Isto é tão bom e perigoso, que se você desenvolver a parte estética pode acabar esquecendo-se das suas referências. Gosto de trabalhar com referência, como gosto de dizer que árvore sem raiz cai. Ela pode estar linda e frondosa, mas no primeiro vento, vai cair. Então minhas referências são sempre os meus antepassados e tudo que eu faço tem uma ligação rupestre, africana ou indígena, independente da pesquisa, pois eu não tento copiar o desenho. Uma foto da alfaia pode lembrar algo indígena ou não. Quando eu pego o nanquim, despejo um pouco em cima da pele, e começo a riscar.
 Não há um padrão x ou y, porque eu não me aproprio de um bem que não é meu, e os instrumentos me deram este prazer. Também voltei a pintar. Foi no FIG que voltei a pegar a caneta, ela estava lá, e a mão ficou livre e deixei a mente levar o pincel. É assim que desenvolvo. 

Que cursos e oficinas você fez?

Na verdade eu só fiz uma oficina até hoje, que foi confeccionar instrumentos percussivos, na época do multicultural no Sitio da Trindade, com Júlio Henrique, que hoje mora em Angola e trabalha em outra área. O tio dele também foi meu professor e o cara que ensinou ao tio dele também foi meu professor por que foi uma coisa em cadeia, o aluno do aluno do aluno. Então a curiosidade de produzir e da necessidade de ter instrumentos, Não tinha maquina e como adaptei e fui pra historia do Luthier que não tem equipamento e precisa sobreviver pra fazer o trabalho, tive que me virar pesquisando e fazendo. Agora já fiz curso de marcenaria para aprimorar as técnicas manuais.

Quais eventos e feiras que já participou?

Na feira Independente Disso, na Coquetel Molotov, que foi muito importante pra divulgação do meu trabalho, porque nesse evento o Emicida tocou, e comprou um material meu. Na Feira do Bom Jesus já fui Algumas vezes. A Feirinha do Bem de lá, foi o pontapé inicial. Já consegui expor como residente no FIG, não no festival, mas por um restaurante. Eu nunca andei tanto. Mas é que meu trabalho sempre é indicado por um amigo. Sempre funciona assim.

E sobre o Empreendedorismo Individual, você já se interessou?

Já sim, mas ainda não fiz uma coisa de suma importância, que é me cadastrar como artesão. Não fiz isso porque estou em dúvida de qual instrumento levarei. Para cadastramento de artesãos, a pessoa faz um teste mostrando seu produto pronto, e como você faz sua peça, estou nesta dúvida, por causa da variedade de instrumentos que faço. Porém já sou cadastrado como Empreendedor Individual, só que foco mais em clientes que me procuram do que em feiras, e, querendo ou não, para expor, os custos são muito altos, por isso, ainda analiso qual o melhor caminho. Procuro enveredar para editais que levam à exposição.


Você Vende por encomendas, mas tem peças suas em lojas?

Por incrível que pareça não, porque toda fez que procuro fazer isto, acontece uma coisa: a depreciação do trabalho artístico do artesão. Se eu for por este caminho eu vou me marginalizar, porque não vou ter o carinho que tenho pra produzir. Estou ao lado de parceiros que são da mesma linha que eu, que são também artesãos, e, por isso, não me sinto boicotado. Quero abrir um espaço, não só pelo capital, mas para agregar meus amigos que produzem.

Para concluirmos, fale quais instrumentos que você confecciona?

Alfaias, caixa, Agbê, Zabumba, Gonguê, agogô, caxixi, bongo de praia e de coco, cajon, ilú, pau de chuva, ganzá, ganzarino, djembe de coco para criança, tambor falante, tambor do mar, tambor de cuia, pandeiro, maracá, pandeirão, kalimbá, Kimbá, chequeton, instrumentos de afeitos, trovão, caneleiras.

















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